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domingo, 9 de agosto de 2020

MACRO- ECONOMIA- HUMANIZADA




Economia significa “produção - comércio - consumo” — três elementos que entram no circuito para satisfazer as necessidades humanas. O ser humano só se realiza no mundo ao seu tornar “ser economicus” — onde deve reinar a “fraternidade”: trabalhar para os outros. Dessa maneira nos tornamos seres “moralmente produtivos”.

Por isso Steiner sugeriu que os três interessados (ou seus representantes) na vida econômica (produtor - comerciante - consumidor) dialoguem entre si (sem concorrência) para atender à qualidade do produto, transparência na transação e “preço” justo. Ele denominou “Associação Econômica”. E hoje essas reuniões poderiam ser virtuais.

Mas para isso acontecer é preciso resolver algumas distorções: a economia deve estar em mãos de pessoas entendidas na produção, comércio e consumo — e não nas mãos do Estado: por isso seus bens de capital e propriedades devem ser entregues à iniciativa privada. E os Bancos Sociais Estatais devem ser incorporados à Vida Cultural/Espiritual, a ser criada — como sugestão, o Conselho Cultural do Brasil (CCB).

Com relação à Terra, é preciso se chegar a novos conceitos, pois, nas “eras rudes da sociedade”, ela não pertencia a ninguém. O monarca, ou senhor do feudo, apenas arrendava do rei. Justamente o rendimento elevado da terra provoca um aumento do preço dos produtos. Enquanto permanecer o crédito real, para a terra, sem se cultivar nada, deixando-a em seu estado original, como nos grande latifúndios, se estará apenas elevando o preço da terra. Esse capital acumulado, especulativo, artificial, é altamente danoso para a economia, porque a natureza não pode ser ligada ao capital, mas ao trabalho. Pela própria condição da natureza, as terras não podem aumentar de valor, se não se aplicar um trabalho nelas. A terra, por sua própria condição natural, não tem valor. É o trabalho que deve ser considerado como elemento de elevação do valor e não a terra em si. Por isso, o crédito, o capital, deve ser direcionado para quem quer trabalhar e não para a terra. É preciso que o setor jurídico trace as normas legais na nova estruturação do organismo social, no sentido de que a terra não seja possuída nem pelo Estado nem pelo indivíduo. Ela poderá apenas ser colocada à disposição para uso, através de uma Carta de Direito da Terra, a ser elaborada pela Justiça. Inclusive, com esta proposta, deverá ser estabelecida a nova política agrária, pois não mais existirão os “sem terras”. Todos terão uma terra.

Nesse sentido, a produção tem a ver com: os bens de capital, a força do trabalho e a terra. Os bens de capital constituem a capacidade do espírito humano, que se condensa numa máquina, numa fábrica. Essas podem produzir bens para serem consumidos, mas elas mesmas não podem ser consumidas. Para isso, sempre se utiliza alguma matéria-prima que vem da “terra” e, através do “trabalho”, esses bens entram em “movimento”, na circulação comercial. Para se realizar algo no mundo, necessita-se de crédito pessoal; e neste aspecto implicará na estruturação da Vida Cultural/Espiritual, como dito acima — através dos Bancos sociais.

Dr. Antonio Marques

A QUESTÃO SALARIAL




Sobre a questão salarial, “pagar pelo trabalho” vem do tempo em que ainda existiam escravos, quando o ser humano era vendido como mercadoria. Essa visão distorcida ocorre justamente por faltarem as questões básicas na troca de valores: “trabalho versus salário”. Assim se estabelece uma falsa noção do chamado vínculo empregatício. O “mercado de escravos” transformou-se em “mercado de trabalho”. Esse é um dos motivos de o “egoísmo” do patrão usurpar o trabalho alheio. Em contrapartida, o trabalhador se transforma em um auto-sustentador. Ou seja, ele trabalha para si, egoisticamente para o seu salário. Como se sabe, pela “divisão de trabalho”, ninguém trabalha para si, mas se trabalha para os outros, para as necessidades dos outros. O trabalho também não é mercadoria, e não será o número de horas trabalhadas que resultará no salário correspondente. Como fica isso? A questão salarial precisa ser melhor esclarecida, através de outro enfoque: Para começar uma empresa, o industrial ou o pioneiro, precisará de “capital” para iniciar o empreendimento, “solicitar terras”, maquinários, pagar os juros do “empréstimo” etc. O restante do que entra é o valor proporcionado por todos os que trabalham naquele serviço. Denomina-se “valor agregado”, ou seja, “valor” que pode ser repartido entre todos os que participam desse crescimento empresarial. Portanto o salário constitui a participação no “valor agregado” da empresa. Por isso o salário não é “despesa” e nem corresponde ao “preço do trabalho”. Aliás, o que é vendido não é o trabalho, mas sim o “produto” do trabalho. Por isso a palavra certa para “salário” é remuneração e isso traduz o “valor do trabalho” e não o seu preço. O produto do trabalho, no fundo, pertence ao trabalhador. Nesse caso, toca-se num problema crítico, que é a relação de trabalho. Ou seja, não se troca o trabalho por qualquer outra coisa, pois não existe um valor que possa definir o “trabalho” de outro elemento. Em verdade, o que ocorre é uma troca de valores. O trabalhador produz algo e o empresário apenas lhe compra o produto final. Portanto é o empresário quem compra os produtos do trabalhador e, com seu espírito empreendedor empresarial, consegue usufruir o lucro na circulação da mercadoria, através do preço. Portanto, o preço tem a ver com a mercadoria e deve ser procurado entre os comerciantes, aqueles que compram e vendem. Desse modo, nas relações de trabalho, ocorre uma verdadeira compra. Por isso a “relação empregatícia” deve ser baseada em novos elementos de “troca”, entre os dois interessados: o empregador e o empregado. Ambos têm um objetivo comum, o de crescimento da empresa. Ou seja, ambos disputam adistribuição de rendimentos, o valor agregado.

Economia tem a ver com “produção, circulação e consumo de bens materiais para satisfazer as necessidades humanas”. No fundo, significa a “realização do homem no mundo”. A mercadoria é colocada em um fluxo globalizado, mundial, para ser consumida. É preciso que os três interessados, na vida econômica, o produtor, o comerciante e o consumidor, ou seus representantes, se reúnam em Associações Econômicas, no sentido de traçar as verdadeiras metas econômicas. Só assim se poderá controlar o preço, valorizar o trabalho humano e atender aos interesses do consumidor!

(Referências: Steiner, Fernandes, Smith, Budd, Vogel e Hermannstorfer)

Antonio Marques

NOVA MISSÃO PARA O BNDES




Recentemente o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) esteve no olho do furacão em escândalos, corrupções e falcatruas envolvendo o governo brasileiro, ao deturpar seu objetivo precípuo, que é financiar o “indivíduo moralmente produtivo” (esta é uma das finalidades do uso do dinheiro – mas existem outras formas). Geralmente indicado para aquele empreendedor que necessita de aporte financeiro para alavancar seu negócio. Mas quem deve avaliar este pedido de empréstimo? O banqueiro? O Estado? O mercado? O amigo conhecido? Ou o Conselho Cultural do Brasil (CCB), proposta deste texto?  

Em primeiro lugar é preciso entender para quê serve o banco? O Banco foi criação dos Templários, ordem religiosa cristã guerreira medieval (1119 – 1312), que nasceu como “banca” na praça das feiras e servia para “troca” (cambiare) de dinheiro e transações financeiras, na qual os banqueiros avaliavam, pesavam e trocavam muitas espécies de moedas. Podiam-se: negociar, pedir empréstimos, pagar dívidas, adquirir letras de crédito e de câmbio, nota promissória etc. E esse objetivo continua até hoje, alicerçado no “bom costume”.  

Em segundo lugar, é preciso entender o que significa “capital”. Este resulta da síntese entre o espírito empreendedor humano e o terreno onde ele trabalha. Com ele se pode fazer o que se quiser no mundo. É preciso, no entanto, considerar as três formas do dinheiro: de compra, de investimento e de doação. O dinheiro de compra pertence à vida econômica, pois se pode com ele adquirir e trocar bens. Corresponde ao lado egoísta normal, quando se refere à condição física de subsistência: alimentação, moradia, aluguel, vestuário, colégio das crianças, pagamento de viagens e de consultas etc. Com relação ao dinheiro de investimento, corresponde a poupança e empréstimos. Nesse caso é necessário efetivar uma relação de direito, com um documento pormenorizado do tempo de poupança ou de uso de empréstimo, dos juros, da forma de retorno etc. A terceira forma do dinheiro é a doação. Poderia surgir a argumentação de que o imposto ao Estado já é uma forma (compulsória) de doação e nesse caso não se precisaria mais “doar” para outras iniciativas. No entanto é preciso entender este aspecto a partir da sua origem. É preciso entender que o capital surge em decorrência da capacidade humana; e nesse sentido seria lógico que os excedentes da produção (os lucros) fossem direcionados de volta à vida cultural, para patrocinar: ensino, pesquisa, artes, cultura, saúde, religião etc. Assim se estaria cumprindo a máxima steineriana, como Lei Social Principal: “O bem-estar das pessoas que trabalham em conjunto é tanto maior quanto menos o indivíduo exigir para si os resultados de seu trabalho, ou seja, quanto mais ele ceder estes resultados aos seus colaboradores e quanto mais as suas necessidades forem satisfeitas, não pelo seu próprio trabalho, mas pelo dos outros”. Por isso, as “doações” são as verdadeiras impulsionadoras das iniciativas, sejam elas beneficentes ou culturais. Com essa atitude a Vida Cultural “livre” pode se desenvolver, pois necessita que o “indivíduo” se desenvolva livremente. Portanto, resumindo, o esquema abaixo mostra como as três formas de dinheiro são possíveis de se realizar: dinheiro de compra tem a ver com a vida econômica, dinheiro de investimento tem a ver com a questão jurídica e dinheiro de doação com a vida cultural. 
   
Dentro desta segunda pergunta cabe um questionamento: o que significa ter capital livre, do qual tenha desaparecido o trabalho? É um capital acumulativo ou “capital devedor”, que pode se tornar um “capital de empréstimo”, para se tornar, por meio do espírito criador humano, “capital produtivo”. A isso Steiner denomina circulação de capital e é o mesmo processo que ocorre no “sangue humano”. Este, ao percorrer os pequenos vasos sangüíneos (capilares), “caminha sozinho”. Mas quando o sangue cai na gravidade (nos grandes vasos), começa a parar. É preciso que uma “força propulsora” imprima novamente maior “velocidade” e isso é realizado pelo coração. Esta é a função do Banco. Além disso, antes de devolver o sangue ao corpo, o que o coração faz? Encaminha o sangue ao pulmão, para ser “oxigenado”, isto é, para o sangue ficar novo. O mesmo se observa no caso de certa quantidade de dinheiro ficar guardada em casa: ele envelhece (por ter ficado fora do circuito econômico). Precisa ser “revitalizado” pelo Banco, para se transformar em “dinheiro novo” e ser colocado novamente na “circulação”. Assim o seu “poder de compra” aumenta. E é isso praticamente o que o banco faz. 

Em terceiro lugar, quem deveria controlar o uso do dinheiro para empréstimo e doação? Deveria ser colocado em mãos do Conselho Cultural do Brasil (CCB), a ser criado pelo Congresso Nacional e ser instalado em Brasília, junto com os demais poderes governamentais, com verba autônoma de custeio, para pagamento de seus funcionários (estes poderão ser remanejados de outros serviços públicos) e para serviços burocráticos, sendo que seus diretores não serão remunerados, pois serão pessoas detentoras de ilibada reputação no âmbito da sociedade, de reconhecida idoneidade moral que possam doar ou contribuir com o organismo social saudável. 

 Finalizando, o CCB terá como metas: fomentar a atividade cultural, a ciência, a educação, a de promover o indivíduo na sociedade, a de integração internacional etc. O dinheiro, que é um instrumento da vida espiritual no mundo, deverá ser usado com esse objetivo. Para isso, será preciso criar um departamento específico dentro do Conselho Cultural, no sentido de que o dinheiro cumpra o seu papel econômico, social e individual. Esse departamento deverá ser o BNDES, como Banco social que já cumpre essa missão. Os seus recursos (capital) poderão vir da vida produtiva, desde que os industriais considerem essa medida mais humana e ecológica, numa nova ordem social. Quando um interessado em começar um empreendimento e precisar de recursos financeiros, o CCB (administrador do dinheiro) analisará se tal empréstimo tem cabimento, o prazo de retorno do dinheiro etc. E em caso de retornar o capital, este poderia ser reinvestido na empresa. Em caso de má gestão, poderia inclusive se pensar em trocar o administrador ou a diretoria; ou em caso do falecimento do titular, um herdeiro capacitado poderia levar em frente o empreendimento; ou, em caso negativo, deveria se procurar outro administrador. Desde que o empreendimento seja um bem necessário à sociedade, deveria se buscar meios para que a empresa continue. Nunca os bens alienados devem ser incorporados à vida estatal, pois esta não é a sua função. 

Urge, hoje em dia, esclarecer melhor os limites e as interpenetrações dos três sistemas do organismo social. A vida econômica deveria ser regida pelas associações econômicas (entre produtor – comerciante – consumidor), a questão da terra (agrária) pela vida jurídica e a questão do dinheiro pela vida cultural – pelo Conselho Cultural do Brasil (CCB). 


Antonio Marques 

MERCOSUL – UNIÃO EUROPÉIA



Finalmente, depois de 20 anos, foi assinado o acordo comercial Mercosul-EU no G20, em Osaka – Japão; encontro de chefes de Estados e ministros de finanças das 19 maiores economias do mundo mais a União Européia. Finalmente o Brasil começou a andar para frente – e a proposta inovadora que se espera será a criação da moeda única “Peso-Real” para o Mercosul, a exemplo do “Dólar” para o Hemisfério Norte e o “Euro” para o Mercado Comum Europeu.

Esta era uma das propostas do historiador econômico inglês Christopher Budd, editor das obras econômicas de Rudolf Steiner (Sussex – England), que veio me visitar porque queria saber quem aqui no Brasil falava de Keynes (vide abaixo). Aproveitei a vinda dele para uma palestra aos alunos e professores de Economia na Faculdade de Economia da UFJF, no dia 13.11.98. Sua proposta é “realizar uma metamorfose gradativa do neoliberalismo em uma atitude pós-pós-moderna”. Para isso é preciso “considerar o dinheiro como reflexo da atividade humana” (conforme suas palavras); ou seja, a “produção” é mais importante e o “dinheiro” é a conseqüência normal. Ainda nesse aspecto, deve-se considerar o dinheiro como “unidade de conta”, com objetivo contábil. Nesse caso, o “lucro normal auto-sustentado” deve ser direcionado de novo à produção e o “super-lucro especulativo de risco-zero” deve ser canalizado para a educação e a saúde. 

Essas propostas não são realizadas hoje em dia porque foi implantado o Plano White (FMI = Fundo Monetário Internacional), norte-americano em Bretton Woods (1945), para a recuperação da economia no pós-guerra, em detrimento ao Plano ICU (International Clearing Union ou Câmara de Compensação Internacional), do economista britânico John Maynard Keynes (1883 – 1946). O que este propunha?  

Ele “criava uma espécie de Banco Internacional sui generis para as transações de comércio no pós-guerra, a fim de realizar o equilíbrio automático no balanço de pagamentos das nações participantes. Essa Câmara (ou Banco Mundial) podia dispensar seus membros de qualquer depósito em ouro, dólar ou outra moeda. Ao contrário, ela criava uma nova moeda internacional (de natureza escritural), denominada Bancor, a ser creditada (como doação) nas contas dos Bancos Centrais dos países participantes, em cotas diferentes (mutantes) segundo o volume de comércio exterior de cada um. A maior originalidade do plano estava, entretanto, na sugestão de se aplicar um tributo sobre os países credores e devedores sendo que o dos primeiros seria uma espécie de juro negativo, a fim de compeli-los a utilizar seus Bancors na compra de produtos das nações devedoras, tornando assim compulsória a participação dos credores no ajuste ao equilíbrio” (Fernandes, S. A libertação econômica do mundo pelo esquecido plano Keynes. Rio de Janeiro: Nórdica, 1991. p.128-9).

No entanto, por motivos espúrios, o Plano Keynes foi execrado do mundo “economês” moderno e nem seus enunciados são conhecidos. No entanto Keynes só é viável para um mundo humanizado, muito distante do que estamos vivendo – num mundo polarizado entre “esquerda – direita” ou entre hipertrofia estatal e imperium econômico. Não se reconhece o ser humano como figura principal deste organismo social. Ele apenas é usado como “produto descartável”. Assume-se profundamente a vida moderna, mas se esquece que, por detrás de tudo, está o espírito realizador humano. No entanto, precisa-se dar uma guinada nessa visão simplória e reconhecer que “o ser humano é o centro de tudo”. Primeiro ele precisa se desenvolver pela Educação, para o crescimento interior ético (virtudes). Em segundo lugar ele necessita da Cultura, para o desenvolvimento moral (para viver na sociedade). Ou seja, para se tornar um ser moralmente produtivo, é preciso a conquista do individualismo ético.

Atualmente, apenas a vida cultural não existe como realidade institucionalizada. Apesar de esse membro social estar presente desde o início da humanidade, na forma de Religião, assume hoje uma postura (inconsciente) como detentora da cultura, da arte, da educação, da ciência. Isso ocorreu, porque os outros dois membros sociais adquiriram independência. Atualmente, ela está apenas servindo de norteadora da ética e da moral, numa forma “nebulosa” e inconsciente nas mentalidades das pessoas e nas instituições. No entanto, ela permeia os outros dois setores do organismo social, porque por detrás da vida “social” (política) e da vida “econômica” se encontra o espírito humano. O indivíduo é que foi se imiscuindo, numa forma de se realizar no mundo, através da política (viver em sociedade) e finalmente através do lidar com as coisas materiais (economia).  

Uma das metas do Conselho Cultural do Brasil (CCB) a ser criado em Brasília, como primeiro membro do organismo social, deverá ser a de fomentar as atividades culturais, a ciência, a educação, a de promover o indivíduo na sociedade, a de integração internacional etc. O dinheiro, que é um “instrumento da vida espiritual no mundo”, deverá ser usado com esse objetivo. (Existem três possibilidades do uso do dinheiro: de uso privativo, de investimento e de doação). Para isso, será preciso criar um Departamento específico, dentro desta instituição, no sentido de que o dinheiro cumpra o seu papel econômico, social e individual. Esse departamento deverá funcionar como Banco social (por isso o BNDES deveria fazer parte do CCB) no sentido de que se possam realizar duas das três finalidades do dinheiro: de empréstimo às iniciativas produtivas e de doação às iniciativas culturais e beneficentes. A “circulação do dinheiro”, que é uma função bancária, deverá ser entregue ao CCB, pois só ele é movido pelo “altruísmo”. Os seus recursos (capital) poderão vir da vida produtiva, desde que os industriais considerem essa medida mais humana e ecológica, numa nova ordem “humana / social / econômica”.

Cabe agora uma importante pergunta: o que significa ter capital livre, do qual tenha desaparecido o trabalho? É um capital acumulativo ou “capital devedor”, que pode se tornar um “capital de empréstimo”, para se tornar, por meio do espírito criador humano, “capital produtivo”. A isso Steiner denomina circulação de capital e é o mesmo processo que ocorre no “sangue humano”. Este, ao percorrer os pequenos vasos sangüíneos (capilares), “caminha sozinho”. Mas quando o sangue cai na gravidade (nos grandes vasos), começa a parar. É preciso que uma “força propulsora” imprima novamente maior “velocidade” e isso é realizado pelo coração. Esta é a função do Banco. Além disso, antes de devolver o sangue ao corpo, o que o coração faz? Encaminha o sangue ao pulmão, para ser “oxigenado”, isto é, para o sangue ficar novo. O mesmo se observa no caso de certa quantidade de dinheiro ficar guardada em casa: ele envelhece (por ter ficado fora do circuito econômico). Precisa ser “revitalizado” pelo Banco, para se transformar em “dinheiro novo” e ser colocado novamente na “circulação”. Assim o seu “poder de compra” aumenta. E é isso praticamente o que o banco faz. E os seus recursos (capital) poderão vir da vida produtiva, desde que os industriais considerem essa medida mais humana e ecológica, numa nova ordem social. Quando um interessado em começar um empreendimento e precisar de recursos financeiros, o CCB (administrador do dinheiro) analisará se tal empréstimo tem cabimento, o prazo de retorno do dinheiro etc. E em caso de retornar o capital, este poderia ser reinvestido na empresa. Em caso de má gestão, poderia inclusive se pensar em trocar o administrador ou a diretoria; ou em caso do falecimento do titular, um herdeiro capacitado poderia levar em frente o empreendimento; ou, em caso negativo, deveria se procurar outro administrador. Desde que o empreendimento seja um bem necessário à sociedade, deveria se buscar meios para que a empresa continue. Nunca os bens alienados devem ser incorporados à vida estatal, pois esta não é a sua função.

O Departamento de Banco Social deverá visar a “circulação do dinheiro”, no sentido de fomentar o capital de empréstimo e de doação, para aqueles que necessitam de meios para trabalhar economicamente no mundo e para a cultura, respectivamente. Portanto tanto a vida jurídica como a econômica precisam do “alimento” que vem da esfera do CCB, como foi amplamente comentado. No primeiro caso, precisa-se elaborar “leis” mais condizentes com a condição humana, que se fundamentem na vida do “direito”. No segundo caso, necessita-se da participação de pessoas com “juízo econômico”, que entendam da prática econômica, que possam fundar associações, para dar um rumo certo à “realização” do homem no mundo. Com relação à “circulação do dinheiro”, que é uma função bancária, deveria ser integrada ao CCB. Assim o dinheiro poderá assumir a sua verdadeira e específica função no mundo.

Neste nosso século deveríamos estar vivendo a trimembração social, mas repetimos velhas cantilenas bi-membradas (esquerda – direita). Se não abrirmos os olhos para a corrente histórica que perpassa as civilizações, algo de ruim pode advir como mostrado acima. Urge, hoje em dia, esclarecer melhor os limites e as interpenetrações dos três sistemas do organismo social; e resgatar o 1º membro do organismo social trimembrado – o CCB.  

Antonio Marques
Membro do CCB

CRIPTOMOEDAS



A criptomoeda é um mercado de lucratividade volátil, através da mídia, sem um sistema bancário central regulador. Grande parte usa sistema de controle descentralizado com base na tecnologia de blockchain, que é um tipo de livro-registro distribuído e operado numa rede ponto-a-ponto (peer-to-peer) através de milhares de computadores, onde todos possuem uma cópia de todo histórico das transações, impedindo que qualquer membro promova alterações no registro ou no software.

Comparadas com moedas comuns mantidas por instituições financeiras ou em forma de dinheiro em mãos, ascriptomoedas são menos suscetíveis às ações judiciais, o que permite o anonimato; e por isso o grande perigo de se tornar refúgio para lavagem de dinheiro. Mas não estão susceptíveis à hackers: em 2018, o Bitcoin Gold, uma vertente daBitcoin, sofreu um ataque de 51%; isso significa que quem controlar 51% tem o poder de processamento para forçar o registro de uma operação falsa. Foi o que fez um hacker e pode ter roubado até US$ 18 milhões.

Porque existe a criptomoeda? Qual seu significado? O que traduz dinheiro virtual circulando, sem um órgão central regulador? Nesse caso, qual a finalidade do “banco”?

A cripto é reflexo da cartilha neoliberal no mercado, na liberdade de se poder fazer de tudo em termos de ganância financeira, de se usar o dinheiro como motivo de riqueza patrimonial, de se buscar o lucro especulativo na ciranda financeira etc. Ou seja: seu objetivo é lucrar e lucrar, no supra-sumo do egoísmo anti-social (abocanho um naco maior do que é de todos). Isso só existe porque foi implantado o Plano White (FMI = International Monetary Fund), norte-americano em Bretton Woods (1944), para a recuperação da economia no pós-guerra, em detrimento ao Plano ICU (International Clearing Union ou Câmara de Compensação Internacional), do economista britânico John Maynard Keynes (1883 – 1946).

No entanto é preciso ter clareza do significado do dinheiro. Em primeiro lugar é preciso considerar o dinheiro como reflexo da atividade humana; ou seja, da “produção” humana é que deve resultar no “dinheiro” – e não o contrário. Além disso, deve-se considerar o dinheiro como “unidade de conta”, com objetivo contábil. Nesse caso, o “lucro normal auto-sustentado” deve ser direcionado de novo à produção e o “super-lucro especulativo de risco-zero” deve ser canalizado para educação, arte e saúde. Em segundo lugar, o dinheiro representa “o espírito humano materializado”; ou seja, é a atividade humana se realizando no mundo.

Comparando a um organismo humano, o dinheiro representa o “sangue” que, ao percorrer pequenos vasos sanguíneos (capilares), “caminha sozinho” (igual ao cripto). Mas quando o sangue cai na gravidade (nos grandes vasos), começa a parar. É preciso que uma “força propulsora” imprima novamente maior “velocidade” e isso é realizado pelocoração. Esta é a função do Banco. Além disso, antes de devolver o sangue ao corpo, o que o coração faz? Encaminha o sangue ao pulmão, para ser “oxigenado”, isto é, para o sangue ficar novo. O mesmo se observa no caso de certa quantidade de dinheiro ficar guardada em casa: eleenvelhece (por ter ficado fora do circuito econômico). Precisa ser “revitalizado” peloBanco, para se transformar em “dinheiro novo” e ser colocado novamente na “circulação”. Assim o seu “poder de compra” aumenta. E é isso praticamente o que o banco faz.

Nessa mesma linha de raciocínio, a moeda virtual seria a “circulação sanguínea” (dinheiro circulando) sem um órgão central (coração). Outra imagem: o excesso de vitalidade circulatória leva a um processo “inflamatório” ou ao “câncer sanguíneo”. Dessa maneira o organismo social se torna doentio. 
Para entender a finalidade bancária, vamos buscar sua origem: o Banco foi criação dos Templários, ordem religiosa cristã guerreira medieval (1119 – 1312). Nasceu como “banca” na praça das feiras e servia para “troca” (cambiare) de dinheiro e transações financeiras, na qual os banqueiros avaliavam, pesavam e trocavam muitas espécies de moedas. Podiam-se: negociar, pedir empréstimos, pagar dívidas, adquirir letras de crédito e de câmbio, nota promissória etc. Não havia “juro” (era considerado usura pela Igreja), pois não se podia lucrar com o tempo; pois o tempo pertence a Deus etc. Foi o período de grandes construções: em pouco menos de 200 anos foram construídas 300 catedrais (Chartres, Rouen, Reims etc), considerado o melhor período da Idade Média, porque o dinheiro foi usado altruisticamente. Mas essa Ordem foi massacrada pelo rei francês Felipe, o Belo. Em Portugal sobreviveu como Ordem de Cristo (criada em 1319) e veio para o Brasil nas caravelas de Cabral, portando a cruz de Malta insuflada pelos bons ventos.
       
Se esse impulso veio para o Brasil, o que estamos fazendo para recolocar o organismo social de volta nos "trilhos" do progresso e do futuro? Cabe a nós curar o organismo social doente; ou seja, é necessário que existam "banco" (coração) e "dinheiro circulando" (circulação sanguínea), para que o organismo social se torne saudável. Para isso é preciso que cheguemos ao capital livre das mãos dos indivíduos --- para se tornar capital acumulativo (ou capital devedor), cuja finalidade será se transformar em “capital de empréstimo”, para que, através do espírito criador humano, se transforme em “capital produtivo”. A isso Steiner denomina de circulação de capital – e seus recursos (capital) poderão vir da vida produtiva, desde que os industriais considerem essa medida mais humana e ecológica, numa nova ordem social. Quando um interessado em começar um empreendimento e precisar de recursos financeiros, o Conselho Cultural (administrador do dinheiro através do Banco Social) analisará se tal empréstimo tem cabimento, o prazo de retorno do dinheiro etc. Assim o dinheiro poderá assumir a sua verdadeira e específica função no mundo. Ou seja, este Banco Social deverá visar a “circulação do dinheiro”, no sentido de fomentar o capital de empréstimo e de doação, para aqueles que necessitam de meios para trabalhar economicamente no mundo e para a cultura / saúde / ensino, respectivamente.

       
Antonio Marques
Membro do Conselho Cultural do Brasil

ÍNDICE

Bloco 1 Abuso de Autoridade  O Fim da Política  Violência na Política  O Estado Teocrático  A Intromissão Estatal Imperium Estatal ...