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domingo, 9 de agosto de 2020

LIBERDADE - IGUALDADE - FRATERNIDADE





Recentemente li um artigo da Monica de Bolle, pesquisadora Sênior do Peterson Institute for International Economics e prof da Uni Johns Hopkins, sobre Freiheit (Liberdade), enfocando “não há liberdade onde há injustiça”.

Numa leitura desatenta, caímos no lugar comum das mentes dualistas e indutivas, que misturam “liberdade com justiça”. No entanto esses dois conceitos nos devem remeter às duas esferas do organismo social trimembrado: “liberdade”, que deve prevalecer na vida do indivíduo, como qualidade associal que existe dentro de cada um (liberalismo). “Igualdade” entre todos perante a lei, e que deve prevalecer na vida social (democracia). “Fraternidade” para trabalhar para os outros como bons produtores morais (Economia).

Como a Vida Cultural não existe institucionalmente instalada no mundo, esse “sentimento da individualidade” (ou da liberdade) se manifesta por detrás da Ciência, da Religião, do trabalho etc. No entanto é preciso que se reconheça como um membro do organismo social que deve nascer no seio da sociedade, para “promoção do indivíduo no mundo” e não se cometa mais disparates desse quilate.

Por isso nossa proposta de se criar o Conselho Cultural do Brasil (CCB) em Brasília, como entidade para dialogar com outros dois membros do organismo social.

Antonio Marques

AS NATUREZAS DA LIBERDADE – INTUIÇÃO – VERDADE – AMOR





Schiller em seu livro Cartas Estéticas, diz: “nós não somos porque pensamos, queremos e sentimos. (...) Nós somos porque somos. Nós sentimos, pensamos e queremos, porque além de nós existe algo diverso. A pessoa, pois, tem de ser seu próprio fundamento, já que o permanente não pode resultar de modificação; teria assim, inicialmente, a ideia do ser absoluto fundado em si mesmo; isto é a liberdade” (São Paulo : EPU, 1992, p.73).

Steiner em seu livro Filosofia da Liberdade (4 ed. São Paulo : Antroposófica, 2008), na 1ª parte, trata sobre “reconhecimento objetivo”: a intuição é a forma pela qual o pensamento pode se reconhecer e se observar (Eu sou eu) — eu sou livre no pensar. Para atingir a esse patamar, necessita-se do pré-requisito dedutivo goethiano: “observar - intelectualizar - idear”. Caso bem realizado, abre-se a porta do conhecimento superior, através das qualidades: “imaginação - inspiração - intuição”, respectivamente.

Nesse caso, a verdade é acessível a todos — a verdade como produto livre do espírito humano (GA 3). Isso traduz que temos que gerar a verdade quando observamos nosso próprio pensamento — somos livres nessa esfera.

Na 2ª parte desse livro, Steiner aborda a intuição como fonte da mais alta moralidade — “intuição moral”. O ser humano que age na liberdade atua por intuição e esta torna-se motivo e força motriz por detrás da ação por amor.

E amor tem a ver com a pura doação do Deus-Filho, do Verbo-encarnado, aos seres humanos. Tem o matiz dos Serafins, que são Seres do Amor, que permeiam a região inferior humana, nos membros, como “potência”, esperando nossa vontade, para que esta se transforme em “ato”. Dessa maneira tornamo-nos “seres morais”.

Portanto, “amor, intuição, liberdade e verdade” — são parâmetros iguais, pois correspondem à mesma esfera. Este é o ideal a ser almejado, porque é o nosso ser. Nós não somos livres ou não-livres. Estamos a caminho da liberdade, cada vez que percebemos “intuição, liberdade, verdade, amor e moralidade” em nossas ações.

Antonio Marques

Texto inspirado no Rundbrief zur Anthroposophie
Dr. F.Husemann

FANTASIA MORAL




Nada mais incongruente associar duas palavras de significados tão diferentes — termo criado por Rudolf Steiner na sua Filosofia da Liberdade (4ª ed. São Paulo : Antroposófica, 2008), para refutar a arrogância filosófica do séc. XIX: “o mundo é minha representação cerebral, fruto da minha imaginação”. Qual a argumentação para referendar a Fantasia Moral? Terá importância para nossa época?

A Moral nasceu na antiga Roma, nos comícios e assembleias populares, numa forma de normatizar igualitariamente posturas sociais dos indivíduos — resultando na Justiça e no Direito. Contrário da “ética”, que nasceu na antiga Grécia e diz respeito à busca de virtude — caminho interior de realização individual, que Steiner renomeou de “individualismo ético”. Por isso não se pode dizer “código de ética”, pois o pensar, o sentir, ainda repousam dentro do indivíduo. Só quando o ato, o gesto, forem executados no mundo, se é passível de julgamento moral. Por isso os códigos devem ser morais.

Já a fantasia é revelada na capacidade de fazer imagens mentais, um caminho interior (como a ética). Se olho um objeto, faço sua imagem na minha cabeça — amanhã posso recordar, capacidade básica da nossa criatividade. Se não consigo recordar, serei demente. Do ponto de vista científico pode ser errado e falso em relação ao original; mas artisticamente, é uma habilidade imponderável emocionante (por isso a fantasia faz parte da alma): posso retocar ou mudar a imagem para que ela se torne bonita e me faça feliz. A imaginação é baseada em mudança de ideias ou de imagens. Nesse caso, todos somos artistas de nossas próprias ideias. Sem imaginação ou fantasia não haveria invenção e nem progresso; tudo permaneceria o mesmo, preso ao passado normativo.

Ou seja, vivemos essa dualidade, essa polarização: no mundo somos induzidos a ser críticos, competitivos e agressivos — por isso o código “moral” (externo) serve para nos dar limites. Em contrapartida, no nosso interior, carregamos benevolência, benquerença, afabilidade - e até perdoamos nossos deslizes — e, ao usar a “fantasia”, criamos possibilidades imaginativas
com graciosidade, estética e beleza.

Mas o fator mais importante da Fantasia Moral tem a ver com a “inversão” dessas forças = para o interior (onde vive a fantasia) devemos introjetar a “moralidade”: auto-crítica, auto-censura, auto-admoestação. E para fora (onde vive a moral) devemos exalar “fantasia”: com grandiosidade, com beleza, com amor nos nossos gestos, profissões e criações.

Devemos colocar nosso interior para fora, externar a “fantasia através da moralidade”, para nos tornarmos indivíduos moralmente produtivos. Assim construiremos novo amanhã.

Antonio Marques

Referência: Rundbrief zur Anthroposophie
Dr F. Husemann

TRIMEMBRAÇÃO SOCIAL



De nada vale o conhecimento sobre Trimembração Social se não tivermos Educação e Cultura, os quais devem ser os instrumentos de elevação humana, através da conquista da virtude, o que se pode denominar de “individualismo ético”. Mas não se pode ficar centrado em si mesmo: é preciso  que o ser humano se realize no mundo como ser moralmente produtivo. Para isso, a vida cultural/espiritual deve criar Bancos sociais, no sentido de que o dinheiro cumpra o seu papel individual, social e econômico. O “Banco social” deverá visar a “circulação do dinheiro”, no sentido de fomentar o capital de empréstimo e de doação, para aqueles que necessitam de meios para trabalhar economicamente no mundo, ou para a cultura.

Outra medida importante é entregar à iniciativa privada as estatais, seus bens e propriedades. Com relação à Terra, é preciso se chegar a novos conceitos, pois, nas “eras rudes da sociedade”, ela não pertencia a ninguém. O monarca, ou senhor do feudo, apenas arrendava do rei. Justamente o rendimento elevado da terra provoca um aumento do preço dos produtos. Enquanto permanecer o crédito real, para a terra, sem se cultivar nada, deixando-a em seu estado original, como nos grande latifúndios, se estará apenas elevando o preço da terra. Esse capital acumulado, especulativo, artificial, é altamente danoso para a economia, porque a natureza não pode ser ligada ao capital, mas ao trabalho. Pela própria condição da natureza, as terras não podem aumentar de valor, se não se aplicar um trabalho nelas. A terra, por sua própria condição natural, não tem valor. É o trabalho que deve ser considerado como elemento de elevação do valor e não a terra em si. Por isso, o crédito, o capital, deve ser direcionado para quem quer trabalhar e não para a terra. É preciso que o setor jurídico trace as normas legais na nova estruturação do organismo social, no sentido de que a terra não seja possuída nem pelo Estado nem pelo indivíduo. Ela poderá apenas ser colocada à disposição para uso, através de uma Carta de Direito da Terra, a ser elaborada pela Justiça. Inclusive, com esta proposta, deverá ser estabelecida a nova política agrária, pois não mais existirão os “sem terras”. Todos terão uma terra.

Nesse sentido, a produção tem a ver com: os bens de capital, a força do trabalho e a terra. Os bens de capital constituem a capacidade do espírito humano, que se condensa numa máquina, numa fábrica. Essas podem produzir bens para serem consumidos, mas elas mesmas não podem ser consumidas. Para isso, sempre se utiliza alguma matéria-prima que vem da “terra” e, através do “trabalho”, esses bens entram em “movimento”, na circulação comercial. Para se realizar algo no mundo, necessita-se de crédito pessoal. Esse aspecto implicará na estruturação da Vida Cultural/espiritual no mundo, para que esta crie Bancos sociais.

Antonio Marques

(Referência: Steiner, Fernandes, Smith, Budd, Vogel e Hermannstorfer)

CARTA AO POVO BRASILEIRO



Estamos passando por uma crise do organismo social de grande envergadura, reflexo da polarização ocorrida na Assembléia Constituinte da Revolução Francesa (1789), entre “gauche et droite”, cujos representantes se sentavam à “esquerda” (republicanos) e à “direita” (monarquistas), respectivamente. Porque o mundo ficou polarizado desde então?

Porque não tivemos o reinado do Grão-duque Kaspar Hauser von Baden (1812 – 1833), neto de Napoleão Bonaparte que, ao vencer o Sacro Império Romano-Germânico (Áustria e Prússia) na batalha de Austerlitz, aglutinou 16 estados alemães sob a denominação de Confederação do Reno (Rheinbund), querendo com isso conseguir a paz na Europa e concretizar o iluminismo(movimento cultural do séc. XVIII), que varreu o mundo com suas ideias revolucionárias de “liberdade” no pensar, “igualdade” na vida do direito e “fraternidade” na vida econômica, ficando conhecido como os três ideais da Revolução Francesa: “liberté – egalité – fraternité”.

Enquanto na França ocorreu a revolução armamentista, com a queda da monarquia, na Alemanha a Revolução foi filosófica, através de Friedrich Schiller (1759 – 1805) com suas Cartas Estéticas. O que essas Cartas falam? Elas relacionam as forças humanas presentes no organismo social, abordando as mesmas forças polares e sugerindo encontrar um meio termo, que ele nomeia de “Cultura”.

No fundo, o que está faltando no organismo social trimembrado é a Vida Cultural, que deve nutrir espiritualmente a atuação do homem, para que ele se torne “moralmente produtivo”.  Ou seja, como Rudolf Steiner fala: “ao lado do Parlamento Político, que administra a posição jurídica do indivíduo perante a coletividade e do povo todo perante o mundo internacional, e ao lado do Conselho Econômico, que deve zelar pelas bases materiais da vida do povo, precisamos de um Conselho Cultural que se preocupe com os assuntos espirituais e tenha como tarefa a promoção dos mesmos” (GA 202, p.203).

Portanto, esta é a sugestão deste autor: devemos aproveitar esta chance de crise ou de doença do organismo social polarizado entre "dois poderes", para repensar as causas da enfermidade, resgatar a Vida Cultural no seio da sociedade com a criação do Conselho Cultural do Brasil (CCB).

Antonio Marques

MINUTA PARA CRIAÇÃO DO CONSELHO CULTURAL DO BRASIL (CCB)



Assunto: Pré-Projeto de Lei para criação do Conselho Cultural do Brasil (CCB)





1. ADVERTÊNCIAS

A “polaridade” na política se extrapolou para a sociedade e tenderá a se recrudescer daqui para frente, se não resgatarmos o organismo social sadio nas suas três esferas, que se denomina de “trimembração do organismo social”, através da criação do “Conselho Cultural do Brasil (CCB)” pelo Congresso Nacional, para tornar viável a vida cultural no seio da sociedade, como representante do indivíduo (liberalismo). Dessa maneira o primeiro membro social servirá de norteador das forças sociais e produtivas.

Isso se faz necessário porque daqui para frente, em torno de 20 anos, 50% das profissões desaparecerão, por causa da mecanização (robotização), em que o fator mais importante não será o “intelecto” – que se aprende na escola padrão, mas a “consciência” – em que novos valores humanos serão enfatizados. Esse alerta mundial mostra que novos paradigmas sociais devem ser pensados a partir de hoje. Como lidar com essa realidade inusitada? Como preparar a nova geração? Que tipo de ensino? Que tipo de medicina? Quais profissões irão sobreviver e outras que irão existir? Como capacitar as Escolas de Ensino Básico e Profissionalizantes para tamanha mudança? Quem assumirá o papel de orientar nessa empreitada? O Estado? O mercado? Ou o Conselho Cultural do Brasil (CCB)?

Portanto, se não despertarmos para a realidade do organismo social trimembrado, dificilmente se terá este novo membro social e aí a situação social futura será catastrófica. Uma nova ordem social deverá nascer para resgatar a dignidade humana num organismo social trimembrado. Por isso urge a criação pelo Congresso Nacional deste membro social.

2. CRIAÇÃO DO CONSELHO CULTURAL DO BRASIL (CCB)

Estamos vivendo uma crise do organismo social de grande envergadura, reflexo da “polarização” ocorrida na Assembléia Constituinte da Revolução Francesa (1789), entre “gauche et droite”, cujos representantes se sentavam à “esquerda” e à “direita”, respectivamente. Porque o mundo ficou polarizado ou dualista ou bimembrado desde então? Porque não tivemos o reinado do Príncipe Kaspar Hauser von Baden (1812 – 1833), neto de Napoleão Bonaparte que, ao vencer o Sacro Império Romano-Germânico (Áustria e Prússia) na batalha de Austerlitz, aglutinou 16 estados alemães sob a denominação de Confederação do Reno (Rheinbund), querendo com isso conseguir a paz na Europa e concretizar o “iluminismo” (movimento cultural do séc. XVIII), que varreu o mundo ocidental com suas ideias revolucionárias de “liberdade” para o indivíduo, “igualdade” na vida do direito e “fraternidade” na vida econômica, ficando conhecido como os três ideais da Revolução Francesa: “liberté – egalité – fraternité”. Também no Brasil ocorreram Revoluções, conhecidas como Conjurações: Mineira (1789), Baiana (1796), Carioca (1798), dos Suassunas (1801) e Pernambucana (1817).

O que esse principado de Kaspar Hauser traria de importância mundial? Seu reinado serviria a vitrine para expor a ideia da “trimembração do organismo social” ao mundo, de uma forma imagética, através das Cartas sobre a Educação Estéticas da Humanidade, de Friedrich Schiller (1759 – 1805). Por causa do rapto de Kaspar ao nascer, não tivemos seu principado; e em compensação nasceram: a “esquerda – direita”, as duas Guerras Mundiais, o Comunismo (Bolchevique), o Nazismo, a ditadura fascista italiana, o estado Islâmico etc.

Atualmente apenas a “vida cultural” (liberalismo) não existe como realidade institucionalizada. Apesar de esse membro social estar presente desde o início da humanidade, na forma de “Religião”, assume hoje uma postura (inconsciente) como detentora da cultura, da arte, da educação, da ciência. Isso ocorreu, porque os outros dois membros sociais adquiriram independência durante a evolução histórica. Atualmente, a Vida Cultural está apenas servindo de norteadora da ética e da moral, numa forma “nebulosa” e inconsciente nas mentalidades das pessoas e nas instituições. No entanto ela permeia os outros dois setores do organismo social, porque por detrás da vida “social” (política) e da vida “econômica” se encontra o espírito humano. O indivíduo é que se imiscuiu, numa forma de se realizar no mundo, através da política (viver em sociedade) e finalmente através do lidar com as coisas materiais (economia). 

O Conselho Cultural do Brasil (CCB) deve ser instalado em Brasília, junto com os demais poderes governamentais, com verba autônoma de custeio, para pagamento de seus funcionários (estes poderão ser remanejados de outros serviços públicos) e para serviços burocráticos, sendo que seus diretores não serão remunerados, pois serão pessoas detentoras de ilibada reputação no âmbito da sociedade, de reconhecida idoneidade moral que possam doar e contribuir com o organismo social saudável.

Portanto, esta é a sugestão deste autor: devemos aproveitar esta chance de crise ou de doença do organismo social polarizado, para repensar as causas da enfermidade social — e a cura será o resgate da Vida Cultural (liberalismo) no seio da sociedade.

3. ORGANISMO SOCIAL TRIMEMBRADO

Como em qualquer organismo vivo não existe um membro sozinho, o que seria igual a uma perna sem corpo; é preciso entendê-lo como um todo. E o que se presencia hoje é justamente “um membro agigantado”, o Estado mastodôntico (estatização) alternando com o Imperium econômico (neoliberalismo); ou dizendo de outra maneira, vigora atualmente a polaridade “esquerda – direita”. No entanto, para uma nova realidade social, a partir do ponto de vista histórico e por necessidade, o Estado deverá se restringir à sua área de ação (promover “igualdade” entre os cidadãos e manutenção dos serviços básicos - sem bancos e bens de produção) em prol dos outros dois membros. O mesmo se deve exigir da economia (produzir bens para o consumo humano). As independências reivindicadas pela esfera cultural são mais no sentido de crescimento e interdependência, tendo como “causa final” o engrandecimento da totalidade do organismo social e do próprio ser humano.

As instituições sociais surgiram devido à vontade humana de procurar se agregar (a pólis). É importante, doravante, que a “força de vontade atuante” seja direcionada para o “crescimento do outro” na comunidade de vida.

4. CONSELHO CULTURAL DO BRASIL (CCB)

Não se deve entender este membro do organismo social como algo estanque, hermético, como se fosse só “produtivo” dentro de um trabalho intelectual ou meditativo ou dentro da Religião. Muito pelo contrário, a vida do indivíduo (espiritual) só se torna produtiva dentro do mundo, ou seja, ela só “nascerá” se ingressar na vida econômica. Como conceito, a vida do “indivíduo” tem a ver com a educação, o ensino, a cultura, a ciência, a arte, a sabedoria etc, que se situam dentro dele como qualidade espiritual livre (liberalismo) e que se deve realizar no mundo como “bom produtor moral” (ou seja, trabalhar para os outros).

Mas, por ignorância dos governantes, o Estado induz uma ciência, uma pedagogia, uma cultura, uma medicina, uma sociedade, uma economia,... com finalidades “egoístas”, da supremacia estatal. O mesmo se pode dizer da hipertrofia econômica ou neoliberalismo. No entanto, se a vida espiritual do indivíduo não recebe a liberdade necessária para crescer e desabrochar, essa “força” retrocede e se transforma em “egoísmo” doentio na vida individual, em “guerra” na vida política e em “concorrência” na vida econômica (entre produtores). E os consumidores passam a reivindicar para si direitos “ilimitados” de escolha para todas as possibilidades de prazeres que se possam comprar.

No fundo, o que está faltando no organismo social trimembrado é a “Vida Cultural”, que deve nutrir espiritualmente a atuação do homem, para que ele se torne “moralmente produtivo”. 

Para quem pensa superficialmente, imputando ao Conselho Cultural apenas conclaves filosóficos ou discussões pedagógicas livres ou uma medicina humanizada ou uma agricultura não pesticida etc, ficará estupefato pelo tópico que se adentrará a seguir.

Com relação ao “capital”, resulta de uma síntese entre o espiritual e o terreno. Com ele se pode fazer o que se quiser no mundo. É preciso, no entanto, considerar as três formas do dinheiro: de compra, de investimento e de doação. O dinheiro de compra pertence à vida econômica, pois se pode com ele adquirir e trocar bens. Corresponde ao lado egoísta normal, quando se refere à condição física de subsistência: alimentação, moradia, aluguel, vestuário, colégio das crianças, pagamento de viagens e de consultas etc. Com relação ao dinheiro de investimento, corresponde a poupança e empréstimos. Nesse caso é necessário efetivar uma relação de direito, com um documento pormenorizado do tempo de poupança ou de uso de empréstimo, dos juros, da forma de retorno etc. A terceira forma do dinheiro é a doação. Poderia surgir a argumentação de que o imposto ao Estado já é uma forma (compulsória) de doação e nesse caso não se precisaria mais “doar” para outras iniciativas. No entanto é preciso entender este aspecto a partir da sua origem. É preciso entender que o capital surge em decorrência da capacidade humana; e nesse sentido seria lógico que os excedentes da produção (os lucros) fossem direcionados de volta à vida cultural, para patrocinar: ensino, pesquisa, artes, saúde, religião etc. Por isso, as “doações” são as verdadeiras impulsionadoras das iniciativas, sejam elas beneficentes ou culturais.

O que significa ter um capital livre, do qual tenha desaparecido o trabalho? É um capital acumulativo ou “capital devedor”, que pode se tornar um “capital de empréstimo”, para se tornar, por meio do espírito criador humano, “capital produtivo”. A isso se denomina “circulação de capital” e é o mesmo processo que ocorre no “sangue humano”. Este, ao percorrer os pequenos vasos sangüíneos (capilares), “caminha sozinho”. Mas quando o sangue cai na gravidade (nos grandes vasos), começa a parar. É preciso que uma “força propulsora” imprima novamente maior “velocidade” e isso é realizado pelo coração. Esta é a função do Banco. Além disso, antes de devolver o sangue ao corpo, o que o coração faz? Encaminha o sangue ao pulmão, para ser “oxigenado”, isto é, para o sangue ficar novo. O mesmo se observa no caso de certa quantidade de dinheiro ficar guardada em casa: ele envelhece (por ter ficado fora do circuito econômico). Precisa ser “revitalizado” pelo Banco, para se transformar em “dinheiro novo” e ser colocado novamente na “circulação”. Assim o seu “poder de compra” aumenta. E é isso praticamente o que o banco faz

Historicamente, só para lembrar, o Banco foi criação dos Templários, uma ordem religiosa cristã guerreira medieval (1119 – 1312), período cultural correspondente à “bimembração social” (Religião e Estado) e que objetivava implantar precocemente a trimembração social.

Neste nosso século deveríamos estar vivendo a trimembração social, mas repetimos velhas cantilenas bi-membradas (esquerda – direita).

Como se viu, o Estado tem outras específicas funções e precisa acordar para a sua realidade social, enquanto que a economia tem outras missões. Há a necessidade de se concretizar a Vida Cultural no mundo; e uma das metas deste órgão no organismo social deverá ser o de fomentar a atividade cultural, a ciência, a educação, a de promover o indivíduo na sociedade, a de integração internacional etc. O dinheiro, que é um instrumento da vida espiritual no mundo, deverá ser usado com esse objetivo. Para isso, será preciso criar um departamento específico, dentro do CCB, no sentido de que o dinheiro cumpra o seu papel econômico, social e individual. Esse departamento deverá funcionar como Banco social — a sugestão é agregar o BNDES (vide outro artigo do autor a respeito) para cumprir sua missão de “Banco Social”.

Quando um interessado em começar um empreendimento e precisar de recursos financeiros, o CCB (administrador do dinheiro) analisará se tal empréstimo tem cabimento, o prazo de retorno do dinheiro etc. O departamento de “banco social” (BNDES) deverá visar a “circulação do dinheiro”, no sentido de fomentar o capital de empréstimo e de doação, para aqueles que necessitam de meios para trabalhar economicamente no mundo e para a cultura.

Também outros departamentos devem ser criados dentro do CCB, como a questão de ensino, profissões, cultura, arte, ciência etc. Mesmo que o Ministério da Cultura (MEC), Ministério da Saúde (MS) etc continuem atrelados ao Estado, nas suas funções burocráticas, a questão de buscar suas “racionalidades” devem ser prerrogativas do CCB.

Portanto, tanto a vida do indivíduo, como a vida jurídica, como a econômica precisam do “alimento” que vem da esfera da Vida Cultural. No primeiro caso, precisa-se resgatar a dignidade humana ao entender o ser humano como ser que precisa se realizar no mundo; em segundo lugar precisa-se elaborar “leis” mais condizentes com a condição humana, que se fundamentem na vida do “direito”; e em terceiro lugar, necessita-se da participação de pessoas com “juízo econômico”, que entendam da prática econômica, que possam fundar “associações econômicas”, para dar um rumo certo à realização do homem no mundo. Com relação à “circulação do dinheiro”, que é uma função bancária, deveria ser integrada à Vida Cultural (CCB). Assim o dinheiro poderá assumir a sua verdadeira e específica função no mundo = para a pessoa moralmente produtiva.

É preciso ter coragem para trilhar este novo caminho.

Nesses termos pede-se deferimento

Atenciosamente

Dr. Antonio Marques

ÍNDICE

Bloco 1 Abuso de Autoridade  O Fim da Política  Violência na Política  O Estado Teocrático  A Intromissão Estatal Imperium Estatal ...